Aprendendo Marketing Musical com Renato Russo

Escrito por Vinicius Soares

Você é músico? Tem talento? É original? Tem valores? Ótimo, mas isso não faz de você um músico profissional, por mais estranho que isso possa parecer. O grande problema é que a grande maioria de artistas fecham os olhos para a importância de saber promover sua própria carreira, da forma correta.

Renato Russo, líder da Legião Urbana, aproveitava sua veia “marketeira” como poucos artistas. Não sabia? Achava que o líder da maior banda do rock nacional era um mero poeta, músico de talento indiscutível? Nada disso.

Há tempos atrás a revista Veja publicou uma matéria revelando exatamente isso. Renato sabia o que fazer para que seu grupo se encaixasse na cena musical do início dos anos 80. Ele não escolheu Dado (com raiz indígena), Bonfá (ruivo) e Renato Rocha (negro) à toa. A primeira formação da Legião era a cara da mistura racial brasileira. Ele sabia que em um país dominado pelo Samba e MPB, a imagem de sua banda daria um tom mais popular ao som que até então, pouca gente estava acostumada a ouvir.

A obstinação em dirigir estrategicamente a banda era tanta que Renato influenciava os diretores da EMI quanto ao lançamento das canções. Leia um dos trechos da matéria da Revista Veja:

VEJA teve acesso com exclusividade às duas dezenas de bilhetes e cartas de Renato reunidas por Davidson, na época, diretor da gravadora da Legião Urbana. Nesses escritos, não há nenhuma revelação de ordem pessoal. Renato, por exemplo, não fala nada sobre sua propalada bissexualidade, que ele assumiria na década de 90. Há, no entanto, surpresas sobre a maneira como o cantor planejava a própria carreira. A imagem que a maior parte dos fãs do Legião Urbana tem dele é a de um poeta rebelde, já que Renato adorava criticar a indústria do disco em entrevistas. Seus bilhetes revelam uma faceta diferente. Renato tinha um faro acurado para determinar quais músicas da banda iriam tocar no rádio. Fazia lobby com a gravadora nesse sentido. Era também obcecado pela imagem do conjunto. Os palpites que dava raramente estavam errados. Era, em última análise, um campeão do marketing.

Entre as cartas de Renato Russo se destaca o maço referente ao disco Dois, lançado em 1986. Há, nos bilhetes, pouco sobre letras e arranjos e muito sobre como cada faixa deveria ser “vendida”. A certa altura, por exemplo, Renato escreve: “Muitos acreditam que Tempo Perdido é a faixa mais forte do disco – e conseqüentemente hit single instantâneo. Mas não é a faixa para ser trabalhada de início”. Ele achava que a gravadora deveria investir na canção Eduardo e Mônica. Dito e feito. Foi isso que ocorreu e o disco foi um dos maiores sucessos da história da banda, com 1,5 milhão de cópias vendidas. Davidson acredita que Renato tinha essa visão de marketing desde o início do Legião. Como se achava muito feio, convidou dois galãs para tocar com ele, para contrabalançar – Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. Renato também contou a Davidson que o baixista da primeira formação do Legião, Renato Rocha, o Negrete, foi escolhido porque o músico achava de bom-tom ter um grupo multirracial. “Ele queria um conjunto que fosse a cara do Brasil, com um negro, um descendente de índios – eu –, um ruivo, o Marcelo, e um filho de italianos, ele próprio”, confirma o guitarrista Dado Villa-Lobos.



Podemos ver um pouco mais da visão de Marketing do líder da Legião Urbana nessa entrevista, veja:

Hoje, saber dirigir uma carreira é muito mais importante do que há 20 anos atrás. A aposta financeira de gravadoras em novos artistas é praticamente zero, acredito que você saiba disso.

O mercado independente está aí, crescente e de portas abertas diretamente para o público, sem intermediários. Muita gente sabe disso, mas, ainda não compreendeu ou se capacitou para essa oportunidade.

Sobre o autor

Vinicius Soares

Vinicius Soares é músico, compositor e empreendedor. Está à frente da Palco Digital, agência de consultoria para músicos independentes e realiza palestras pelo Brasil com foco em planejamento de carreira musical.

Ganhou o Prêmio Profissionais da Música, um dos maiores reconhecimentos da categoria e mantém uma comunidade online com mais de 50.000 músicos brasileiros e estrangeiros.

Uma de suas principais atividades é compartilhar conhecimento e experiência sobre geração de receita no mercado musical através das novas tecnologias, tema que já ajudou diretamente mais de 2.000 músicos e compositores através de seus treinamentos on line.

4 Comentários

  • A escolha minuciosa estava na base visual da banda. Entendi a proposta dele, porque antes que o áudio viesse aos ouvidos, a imagem é mais fácil de assimilar. Até porque fisicamente (trocadilho válido) a velocidade do som não ultrapassa da imagem, rsrs. Bom artigo, Vinicius!

  • A escolha minuciosa estava na base visual da banda. Entendi a proposta dele, porque antes que o áudio viesse aos ouvidos, a imagem é mais fácil de assimilar. Até porque fisicamente (trocadilho válido) a velocidade do som não ultrapassa da imagem, rsrs. Bom artigo, Vinicius!

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